terça-feira, 30 de junho de 2009

De volta pra casa

Seis meses atrás eu chegava a Curitiba trazido por uma ambulância, sedado e contido, desesperado e sem saber direito para onde estavam me levando. Tinha sido pego a força na casa de praia dos meus pais após várias tentativas mal sucedidas de me convencerem a fazer um tratamento contra a minha doença. Estava me suicidando lentamente com quantidades cada vez maiores de cocaína e bebidas alcoólicas. Já não estava trabalhando, minha vida conjugal estava arruinada, minha saúde debilitada e mesmo assim não conseguia entender que estava precisando de ajuda. Vivia num mundo só meu, onde a realidade e a fantasia se misturavam.
Cheguei a clinica com a certeza de que meu casamento havia terminado. Durante muito tempo o mantive através de ameaças e pressões de todos os tipos. Apesar de minha esposa perceber claramente meu problema, eu a chamava de louca e negava meu evidente abuso com as drogas. Sabia que tinha transformado nossa relação em um inferno e agora não teria como impedi-la de finalmente sair de casa e se livrar daquela vida que ela não merecia.
Estava desesperado com a sensação de impotência. Já não tinha mais como usar as armas que eu conhecia. Manipulações, mentiras e ameaças não iriam me tirar daquele lugar. Passei meu aniversário e o réveillon na Unidade de desintoxicação da clínica. Durante uma semana chorei enquanto refletia sobre como tinha ido parar ali. Em que ponto tinha errado e como tinha perdido o controle da minha vida. Minha cabeça ia se enchendo cada vez mais de perguntas sem respostas. Não entendia como eu, que sempre soube de tudo podia estar agora tão confuso e perdido.
O inicio do tratamento foi um período muito complicado. Só pensava em sair dali e retornar a minha antiga rotina. Achava que quanto mais tempo eu perdesse ali, mais difícil seria resgatar a confiança das pessoas que eu amava. Eu ainda não compreendia que precisava primeiro me conhecer, entender meus problemas e recuperar meu senso de realidade. Ainda estava pensando e agindo como uma pessoa intoxicada.
Com o passar dos dias fui percebendo que não adiantaria lutar contra o tratamento. Minha resistência foi diminuindo e comecei a entender que talvez eu precisasse mesmo de ajuda, afinal, fazendo as coisas sempre do meu jeito tinha acabado ali, internado. Despir-me da arrogância, prepotência e orgulho foi a coisa mais difícil que tive de enfrentar, porém foi o ponto de partida na minha recuperação.
A partir do momento em que admiti que precisava ser ajudado, se tornou mais fácil aceitar o tratamento. Aos poucos fui descobrindo que as drogas tinham me transformado em uma nova pessoa. Um sujeito cheio de máscaras, que demonstrava uma segurança, um equilíbrio e uma confiança que não existiam. Sentimentos que não eram verdadeiros. Comecei então a entender o real propósito do tratamento.
Para entender o que tinha acontecido, precisaria buscar respostas num lugar onde jamais tinha ido antes. Teria de mergulhar profundamente na minha autoconsciência. Fazer uma análise das minhas lembranças, das minhas atitudes e remexer em sentimentos esquecidos. Percebi então que nunca havia me olhado de uma maneira mais crítica. Nunca tinha tentando entender o que estava sentindo e quais os motivos dessas sensações.
Às vezes seguimos passos ou temos uma postura que não aprovamos sem perceber. Descobri que as pessoas que mais me incomodavam eram aquelas que mais se pareciam comigo. Eu projetava minha raiva naqueles que agiam exatamente como eu, sem me dar conta de que na verdade aquelas eram as minhas próprias frustrações. Precisei de algum tempo para aceitar que na verdade eu já não suportava mais a mim mesmo.
Aos poucos, fui aprendendo a me conhecer e a aceitar meu verdadeiro tamanho. Impressionante como quando aceitamos quem realmente somos as coisas se tornam mais fáceis. Passei a me sentir mais seguro e confiante e a aceitar criticas sem me sentir agredido. Comecei a escutar e refletir sobre tudo o que ia me sendo dito e fui me sentindo cada vez melhor.
Esses seis meses de tratamento me fizeram ver a vida com outros olhos. Estou voltando esta semana para Florianópolis me sentindo uma nova pessoa, com prioridades e propósitos diferentes e com a sensação de ter extraído ao máximo tudo aquilo o que me foi passado. Ciente de minhas limitações e sempre respeitando a minha dependência, continuarei a vir a Curitiba uma vez por semana para participar de grupos operativos e me consultar com meu terapeuta para que esta nova etapa da minha vida prossiga sem percalços.